quinta-feira, 11 de outubro de 2018

LOS URRIELES DAY THREE - TORRE CERREDO

Depois de nos dois anteriores posts deste blog, ter descrito os  primeiros dias desta incursão no maciço central do Parque Nacional dos Picos da Europa, ou Urrieles, chegou a altura de escrever sobre o terceiro e último capítulo desta trilogia. 

Atingir o cume da torre mais alta dos Picos da Europa, podia ser uma tarefa fácil, como haverá tantos cumes bem mais altos e mais fáceis...não é o caso. O terceiro dia será bem duro, e em cima dos anteriores. O segredo é saber sofrer, com um sorriso na cara, e com boa disposição. Vamos lá de assalto ao castelo do Sauron.




Depois de uma noite, mal dormida, junto com mais quase 20 montanheiros, no refúgio do Urriellu(todos no mesmo quarto), quase a 2000m de altitude, na base do Picu Urriellu, é chegada a hora de partir.




Ainda de noite, as botas já pisavam o calcário infinito destas altitudes. O pequeno almoço frugal, ficava para trás, e agora, havia que convencer os corpos pouco acordados, e algo massacrados pelos dois primeiros dias, que teriam de se superar e dar tudo o que tinham, para cumprir mais este terceiro objectivo, que lhes era pedido.








Logo após atravessar a Vega Urriellu, a Brecha dos Cazadores era para trepar com as mãozinhas. Primeira de muitas.



Últimos metros de erva do dia



Prosseguimos com o Neverón de Urriellu à esquerda, a avistar cada vez mais de perto os colossos Pico dos Cabrones, e a seguir a grande Torre Cerredo, tecto da cordilheira Cantábrica e do Noroeste da Península Ibérica. Para chegar à sua base desde o refúgio, já foi uma boa esticadela por entre cascalheira, buracos, declives, mas agora...agora começará verdadeiramente o montanhismo...


Nada é fácil nestas paragens




Desde o fundo do Jou de Cerredo até ao cume da torre, são mais de 400m de declive muito inclinado a quase vertical, à medida que nos aproximamos do topo. É assustador, tamanha distância em tão grande declive.



Para ficarem com uma ideia mais aproximada das proporções, na imagem acima assinalei com um círculo branco dois trepadores que subiram depois de nós. Esta imagem reporta-se apenas ao topo da torre, óbviamente.


Para os últimos 100m, as mochilas têm mesmo de ficar em baixo, porque já basta o que basta. Daqui para cima, não há alternativa...ou estamos completamente focados na tarefa, de colocar bem pés e mãos, ou simplesmente deixaremos de "estar". A vista para baixo é proibitiva, a não ser que haja uma qualquer anormalidade de funcionamento hormo-emocional que suprima picos de adrenalina. De outro modo, é melhor olhar para a frente e para cima...

Nível de escalada II+

Vamos lá, não viemos até aqui para ficar a olhar para a coisa. Siga.





O mar Cantábrico já ali
Os prémios...
Para Ocidente...
Para oriente
Porra pá, tirei uma selfie
Andar de avião não é muito diferente



Já conseguimos 50%. Lá em cima, ainda há uma curta cumeada, que por haver vento forte, até assustou um pouco. Vento e frio. A emoção era grande, as vistas ainda maiores. Após uns 15m, havia que iniciar agora o mais difíçil.

Subir é opcional, descer...é mandatório.


O vento amainou na descida, e tudo correu bem. Impróprio para quem tenha medo de alturas.

Aqui já perto do fim da descida, agora muito menos vertical.

Há quem desça em rapel, mas não era a mesma coisa...

Cá em baixo, depois de recuperarmos as mochilas, o dia estava muito longe de acabar. Seguindo sempre a lógica de não voltar a trilhar caminhos já percorridos, havia agora que sair deste gigantesco fundo buraco que é o Jou do Cerrredo. A porta de saída é mais uma vez no cimo de uma subida enorme com cascalho e gravilha. Lá vamos nós para a Horcada de San Carlos. Na foto em baixo ainda vista bem lá de cima...

A Horcada de Don Carlos á esquerda
La trepadiela

 Botas ao caminho


Super anão de Lanhoso

 Do outro lado havia que parar em alguma sombra para comer. Jou de Arenizas foi o local.
As vistas do restaurante até nem eram más




Anões




Admirando as últimas vistas do El Picu



E agora a caminho do Jou Sin Tierre e Jou dos Boches

Jou Sin Tierre
Um Jou gigantesco


O topo do Picu Urriellu desde o sudoeste

Rebeco a ver quem passa

Agora já só queríamos chegar a tempo do último teleférico para Fuente Dé que era às 18h. Para isso, teríamos de não vacilar no passo, nem nos obstáculos...senão, teríamos de descer a porcaria do km vertical outra vez...

Jou dos Boches e subida para o collado dos Horcados Rojos

Ainda faltava um...aquela paredezinha é para subir, literalmente a pulso...até ao collado dos Horcados Rojos. Verticalidade e gravilha...TOP. Em alguns troços o cabo está arrancado da pedra, pelo que todo o cuidado é pouco e com tempo húmido, nem quero pensar...


E chegados lá acima, é só descer pelo passeio da Verónica até El Cable. Chegámos com 15m de antecedência. We´ve made it guys.


Adiós Urrieles


Beleza

Estatísticas deste dia: 14km, quase 1400m de desnível a lá Picos. 


EPÍLOGO


Após um adiamento desta expedição aos Picos por causa da grande quantidade de neve deste ano, após incontáveis horas de planeamento, treino e ansiedade, os objectivos ambiciosos de fazer em três dias seguidos os trilhos que fizemos, chegaram, agora cá em baixo, em Fuente Dé, finalmente a um descanso. Melhor ainda, faltava o abraço da chegada a casa, em segurança. No total, cerca de 4300m de desnível acumulado positivo, e cerca de 43km percorridos num terreno terrível.

No que diz respeito aos meus companheiros de expedição, o Jorge e o Alberto, só posso dizer que são grandes caminhantes e que me sinto honrado por ter integrado novamente esta equipa. Não tão grandes como eu claro, porque eu sou bem mais alto, mas grandes naquilo que importa, capacidade de sofrimento, sabedoria, conhecimento, e a massa que nos une a todos os três...a paixão pelas montanhas, pela natureza e a descoberta. Obrigado amigos. Inesquecível.

Foram dias de intensidade alta, física e mental, que correram pelo melhor, com a ajuda também da metereologia. 

Um último agradecimento muito especial à minha mulher que conheci numa montanha, e que me dá a força especial necessária, mesmo quando não está, nas horas mais apertadas.

É bom estar de volta a casa, é bom ter lá estado e ter bebido tão profusamente do cálice das montanhas dos Urrieles. 

Espero que tenham gostado de acompanhar a nossa aventura e que no futuro próximo nos possamos cruzar por aí.

Boas caminhadas, boas aventuras.



FIM



Resultado de imagem para sauron sadP.S. Quanto ao Sauron, parece que quando chegámos a casa dele, ele tinha saído pela porta dos fundos para ir comprar tabaco e nunca mais voltou. É para aprender. Provavelmente mudou-se para outro cume...Mas os hobbits haverão de o encontrar...

Quanto à fabada Asturiana...bem...o que acontece nos picos, fica nos picos.

Disse.



















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