Testemunhos


ALBERTO PEREIRA

Serra do Gerês, 24 de Agosto do ano de 2014. Não é fácil tentar por simples palavras explicar a alguém, e esse alguém pode vir dos mais variados quadrantes quer seja um familiar, um amigo ou até um simples conhecido, o que nos leva e motiva, a mim e a todos os outros amantes da natureza, a deixar para trás o conforto dos nossos sofás e a partir em direcção a um meio que muitos consideram agreste mas onde nós, os que dela gostamos, nos sentimos aconchegados e apelidamos de 'casa'. Falo-vos, é claro, da montanha! Enfrentando o frio e o calor, o vento e a chuva, carregando pesadas mochilas, superando a fome e a sede, vencendo enormes declives e caminhos por vezes á muito tempo esquecidos, semana após semana, mês após mês, ano após ano, lá vamos nós, "rotulados" de loucos em busca daquilo que para muitos é inconsequente mas que para nós faz todo o sentido: sentirmo-nos livres e vivos! Livres?! Vivos?! Mas como? Perguntarão esses, muitos, outros. Se pudesse em poucas e simples palavras descrever-vos aquilo que é indescritível, ou melhor, explicar-vos o que é simplesmente inexplicável, eu diria: não existe maior motivação do que sentirmo-nos vivos e que "por lá" tudo faz sentido e tudo harmoniosamente ocupa o seu lugar, inclusive Eu!





RUI BARBOSA



Pensei que fácil seria, ao fim de todos estes anos, descrever o que significa para mim caminhar nas montanhas. Deixei o tempo passar e descobri que não é!

Como descrever a torrente de emoções e sensações quando já a longe se vêm as cristas montanhosas a rasgar o céu? A ansiedade de pôr as botas ao caminho sem saber ao certo para onde ele me levará? É como precisar de novas palavras para descrever o que sinto, o que vejo e o que 'lá está'!

A montanha preenche-nos de uma forma como poucas coisas o fazem. Põe-nos à prova na nossa Humanidade.

Porquê caminhar na montanha e ser por momentos parte da Natureza que nos teme? Simplesmente, porque está ali, para vivermos...


Carl Sagan disse sobre a exploração Humana do Cosmos que "algures, algo incrível está à espera de ser descoberto!" referindo-se à imensidão do mar cósmico que todas as noites contemplamos e que desde o alvorecer da Humanidade despertou em nós a sede de conhecimento.

Não querendo de qualquer forma estabelecer uma comparação com o grande cientista e comunicador científico que nos deu o "Cosmos" e que a tantos de nós inspirou, pego nas suas palavras referindo-me à imensidão dos espaços que do alto dos píncaros serranos mais elevados contemplamos aos perscrutar os vastos horizontes e os profundos vales entre a Peneda e o Gerês. Por ali, algures, também algo incrível está à espera de ser descoberto!




PEDRO BALAIA


O Alexandre Matos, criador deste blog e meu amigo, pediu-me uma coisa difícil, descrever ou explicar em forma de testemunho, os meus sentimentos perante uma montanha. 
 - Alexandre, não podias pedir apenas uma receita de arroz de tomate??
Muita coisa nos acontece quando subimos uma montanha e uma delas é a companhia com que nos brindamos a nós próprios, as conversas que temos connosco, as palavras de auto motivação para nos ajudar naquele último bocadinho. 
Sempre surdas! A companhia, as conversas, a auto motivação, são só nossas, nada nem ninguém nos ouve ou contesta. 
E é nessas alturas, íntimas, muito íntimas, que a nossa mente se livra do que não nos alegra o espírito, o sangue aquece e corre nas veias com uma força anormal, ganhamos vitalidade, ganhamos coragem, perdemos medo, somos grandes tal qual a grandeza que nos rodeia, fazemos parte dela, somos leves a subir e pesados a descer, somos (se não somos, fazemo-nos) audazes.
Se calhar, Heinrich Harrer, explica tudo muito bem quando, perante a pergunta do Dalai Lama, lhe responde assim:
The absolute simplicity. That's what I love. When you're climbing your mind is clear and free from all confusions. You have focus. And suddenly the light becomes sharper, the sounds are richer and you're filled with the deep, powerful presence of life.
É isto amigo Alexandre, a poderosa presença da vida. E a vida existir é já por si uma coisa extraordinária e as montanhas fazem-nos tão somente lembrar disso.



SUSANA MOURA



Ora temos aqui um tema infinito...caminhar em montanha!

Como vou iniciar este tema, se não tenho o fim do começo?!
Acho que ainda não comecei...ainda há muito para explorar!!!
O que ainda consegui absorver desta actividade foi os momentos vividos no 
verdadeiro sentido!
O que mais tenho medo quando morrer, é de não poder calcorrear a terra granítica e pura!
Mas como acredito na reencarnação...vou ser novamente uma cabra montesa!
Sou aquela cabrinha que não sobe aos picos todos, mas que ficar a babar só de olhar!
Gosto de roçar no mato das urzes e giestas e levar com a brisa serrana na pele branca e hipersensível ao sol!!
Mas se pensam que isso me faz desistir?! NÃO!!! É toda esta sintonia que faz da pessoa o  que sou hoje!
Foi nos momentos mais difíceis que fui absorver tudo o que a montanha tinha para oferecer!
E até hoje ainda não encontrei forma de lhe agradecer!!!!
O transpirar, subir quase a chorar, descer incansavelmente, passar frio, escaldar em calor e derrapar no gelo de vento
Fez de mim a humilde serva, pouco complicada e muito selectiva nos companheiros de montanha!
Se posso faço, se não, fico a ver, como uma cabrinha a observar no topo da colina!
Não perco tempo com nomes de pedras, nem com um desfiladeiro sem toponímia !
Quero apenas sentir o cheirinho da terra, ouvir a água a escorrer das escarpas e beber dos ribeiros!
O zumbido das abelhas, os gritos dos pastores ao longe  e os sons dos garranos com crias!
Oh! Se me perguntam o que mais ganhei nestas caminhadas?!
Os melhores amigos doidos! Doidinhos como eu!
Que ficam a olhar para as catedrais rochosas e a imaginar a sagrada família de Barcelona!!! Mas quem foi o arquitecto? 
Foi aquele que viu o sol a nascer na serra e o final do dia lá no topo?
Sim, sem dúvida aquele que trocou o conforto do seu lar, e desafiou a força da natureza que nos trouxe a este mundo!
Amigos únicos, insubstituíveis e discretos! Sem procurar protagonismos, só e somente sujarem-se no terreno firme!
Estenderem a mão, quando não conseguimos sozinhos alçar a perna para a colina mais alta!
Depois vem a gratidão e essa sim, é o topo mais alto da montanha!
O marco definitivamente marcado, do resto de toda uma vida!
Vivam pessoas com esta alma, que vivem neste mundo, que respiram do mesmo ar e que são grande anões da natureza!


Um Abraço ao amigo Alexandre, o grande!!


Lírio ( Cabra do Gerês)










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