sábado, 28 de abril de 2018

Montemuro - Vale do Bestança

Nunca o verde se enamorou tanto de mim como neste Vale do Bestança. A serra estava engalanada, as aldeias viviam ainda. Ao longo destes mais de 23km, e 1465m de trepadela acumulada, visitando 6 aldeias, o rio, (dos mais limpos da Europa), pujante, quase sempre a ouvir-se, entoava o hino à primavera, sempre a correr para o Douro. O cume desta região, na Serra de Montemuro, de seu nome ´Talegre´ (ponto mais elevado do distrito de Viseu), quase a bater nos respeitáveis 1400m de altitude, vigia tristonho o infeliz destino de estar acompanhado desses corpos estranhos de metal a girar e a assobiar, atravancando as vistas que, de outro modo seriam extraordinárias. Silêncio e animais fogem dali, estradões rasgam o santuário profanado, e o grito da liberdade no bico de uma águia real, ficará apenas num imaginário que... não aconteceu. Salva-se a conveniente contrapartida para as aldeias locais... mas a que preço...a que preço. Terá de haver outra solução...


CRÓNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA

Mas não se enganem por estas palavras de mágua, porque este trilho ficará bem alto na minha consideração pela ruralidade ímpar de um vigor em tons garridos de verde, alimentados pela água da vida, a jorrar de todo o lado à sombra das veredas de aveleiras. Caminhos antigos belíssimos lajeados pela mão laboriosa dos homens e mulheres de antanho, carimbados pelo rodado da carroça, que resistem ainda à indiferença dos mandatários, políticos. Vai o pastor e sua esposa, monte acima com o rebanho, nesta vida dura sim, mas muito bonita. Inevitável o envelhecimento de aldeias belíssimas que inseridas em longínquos recantos enfermam de doença grave e crónica; a não ser que receba o remédio urgente que seria por ex, haver um forte incentivo às gentes que permaneçam ou se desloquem para estas paragens e aí organizem a sua vida, o paciente já muito enfraquecido, não resistirá, e estas aldeias agora já sem crianças, irão ficar sem adultos, e os caminhos tomados de assalto pela giesta.

Infelizmente não se vê grandes medidas para inverter isto, pelo contrário:




Há que estudar seriamente novas maneiras de rentabilizar tão férteis campos, searas, lameiros. 
À nossa passagem pelas 6 aldeias visitadas(Tendais, Bustelo, Alhões, Granja, Soutelo, Meridãos), invariavelmente, a conversa com os locais, felizes por verem alguém por ali, e nós pelo que aprendiamos deste gente, genuína, humilde e hospitaleira, desenrolava-se por vários minutos. Passado o espanto por estes caminheiros serem de longe e estarem a percorrer tão longo percurso, neste dia de calor, a lamentação pelo abandono das gentes, e família, para tentarem melhor vida lá longe, é uma constante. 




Tantos caminhos, tantos dramas antigos, tanto trabalho e arte, e agora tudo a desaparecer; será que é esse o natural sentido da evolução? Será que estas aldeias têm mesmo de se extinguir e devolver à paisagem aquilo que outrora lhe tiraram? Vamos todos viver para os grandes centros, à beira mar plantados com vistas preveligiadas para o centro comercial? Vamos deixar mais 'minas dos carris' , a manchar de feiura em tijolo e cimento mortos, as paisagens deste nosso paraíso? E quem vai extrair os bens primários que nos concedem a existência? O cereal, as frutas, os legumes, etc? 
Este vale do Bestança, não fosse as aldeias que o pontilham e as ruas que lá moram, não fossem todos estes sinais de civilização ainda activa, diria eu se fosse mandante: declare-se zona ZPT, protecção total, tal é a riqueza que lá existe...digna de ser pelo menos reserva natural, sem passadiços claro. Passadiços maravilhosos por lá não faltam, mas são os originais lajeados e murados, pelo labor de muitos. 

Fica um link apropriado que se preocupa:




Obrigado Alberto Pereira pela concepção deste trajecto, e por mais uma página neste nosso livro de paixão. 

Abraço a todos, e muito especialmente às nossas famílias. 







































































































































1 comentário:

Alberto Pereira disse...

"Há quem goste de um carro novo, um telefone novo, uma roupa nova, etc...
Eu prefiro os caminhos velhos!"
Go Hard... or Go Home!

Aquele abraço!