terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Circunvalação do Vale da Mata do Cabril

Um dia especial. Especial pela equipa, pela ambição, pela vontade irreversível de abraçar o desconhecido. Especial pelas muitas horas de planeamento e de colaboração, e especial pelo esforço físico que seria incontornável. Especial pela dureza, pelas descobertas e pela conquista de mais uma página especial do pedestreanismo...a circunvalação do Vale da Mata do Cabril, e claro, sem recurso a estradões.
No total 23km, abrangendo uma área de cerca de 13km2  e mais de 1400m de desnível acumulado.



Cedo a equipa já fervia, de botas no chão congelado e, atacando a parte mais desconhecida e potencialmente impeditiva do objectivo maior. Despachar as dificuldades primeiro... pega de caras.

Esta parte do caminho foi sendo caminhada mais com os braços e alguma ferramenta, do que pernas. Duro, mas sempre no trilho até ao bem guardado curral do Gavião...um local especial numa zona especial, com estruturas cercanas, abrigo e  cortelhos muito antigos, e enquadrados em zona onde vestígios de povos antigos, abundam. Tudo isto abraçado pela vigorosa natureza praticamente intocada, perto de zona ZPT e, raramente visitada. 

Mas...esta era apenas a primeira paragem do dia. O Gavião seria o trampolim para vôos mais altos. Ali bem perto a chamada Torre Grande e Torre Pequena observavam incrédulas a aproximação destes atrevidos anões que ali chegariam em breve. Nesta zona mais uma vez, inúmeros testemunhos de outras eras agregam uma sensação mística em que o deslumbramento aparece diante dos olhos fitando a paisagem que se avista da torre e, muito especialmente da chamada Torre Pequena, que considero um belo capricho da natureza. Do extremo oeste da Grande, se pode apreciar a fabulosa Pequena. O termo torre é muito bem aplicado, especialmente à mais pequena porque nos cimos é razoavelmente plano. Locais vertiginosos e especiais. No cimo da Torre Pequena, um relvado plano a convidar, como um chamamento de sereia que nos encanta e atrai quase irresistivelmente para uma provável armadilha. Um acesso bastante vertical e sem margem de erro. Resumindo: local amplo, vertiginoso para norte e oeste, com curral e respectivo abrigo ao estilo serra Amarela, bosque de carvalhos, belas torres e muitos vestígios de eras passadas. Local muito especial...


Uma das coisas que mais me agradou neste dia foi ter conseguido ligar as zonas mais conhecidas às zonas desconhecidas sempre por trilhos de pé posto e muitas vezes bem mariolados, ainda que várias  destas sinaléticas repousassem submergidas por baixo de densa vegetação. Trilhos que estão abandonados. Abandonados pelo envelhecimento, pela desertificação e pela proximidade e apropriação do PNPG da zona ZPT, que impede o usufruto dos locais. Ora, como os locais já não utilizam e o parque não não preserva, claro que as coisas vão ficando abandonadas até desaparecer...



Sempre em ascensão passamos junto aos Cimbros e entramos zonas mais amplas...as gigantescas lajes que inspiraram o nome Xerteiro das Eiras e Laje das Eiras. Alguns pequenos bosques de pinheiros silvestres salpicados por muitos pinheiros mansos, estes últimos, nada naturais destas bandas. De qualquer modo, uma zona diferente do que estamos habituados a ver na serra e que nos transmite paz. 

A seguir a trepadela até à  Cruz do Touro. Até ao Ramisquedo acabava a primeira metade desta circunvalação. A segunda metade era outro planeta. Agora a descer e com chão muito mais plano,  a progressão faz-se a voar. Pelo caminho alguns currais dos mais bonitos do PNPG: Rebordo Feio e Travanquinha por ex. Um grande bosque de ciprestes ao melhor estilo da Serra da Cabreira e finalmente os caminhos rurais do Lindoso. No final junto às portas do parque, uma espreitadela aos espigueiros e castelo. O Ponto final, no bar da associação com uma merecida bebida fresca.


Resumindo e Concluindo: obrigado às nossas mulheres e famílias e um obrigado pessoal aos meus colegas de aventura em mais esta página bem garrida no livro das nossas histórias.

Abraços



Uma reflexão sobre o enquadramento do Plano de Ordenamento do PNPG(2010) para esta zona, à luz da experiência deste dia. Primeiro o parágrafo referente a esta área:

Área de intervenção específica da Porta do Lindoso

A Porta do Lindoso consubstancia uma área programada e equipada para a recepção, o recreio e o
lazer dos visitantes do PNPG, enquadrados por um sistema de informação e sensibilização ambiental
que os prepara para a exploração do território envolvente e localiza-se no Lindoso, no limite da área
protegida, no concelho de Ponte da Barca.
Constituem objectivos da área de intervenção específica da Porta do Lindoso:
a) A elaboração dos projectos e a execução das obras necessárias à implantação dos
espaços exteriores, estruturas e equipamentos programados;
b) A implementação de um programa de gestão e dinamização da visitação;
c) A recuperação e beneficiação de trilhos;
d) O apoio ao maneio das áreas pastoreadas na envolvente da Mata do Cabril;
e) A recuperação paisagística da Louriça;
f) A criação de uma pousada da juventude;
g) A reconversão da antiga casa florestal para alojamento de apoio a investigadores.

Quanto ao ponto c, posso confirmar que há limpeza de trilho do Curral de Travanquinha para baixo até à aldeia. Posso também confirmar que no lado oposto, a este da mata e a sul, não há presença humana faz muito tempo. Exceptuando um ou outro caminheiro que não tendo tomado a medicação nesse dia, se aventure para ali, qualquer visitante que saia da aldeia nessa direcção, anda 500m e volta para trás(e faz muito bem). por outro lado , se há ali bem pertinho uma zona ZPT, não deveria haver alguma sinalética?
No final deste dia, em frente à porta do Lindoso, um local, falava de outros tempos de actividade por aquelas bandas, e como tudo terminou com a "apropriação" do Parque daquela zona. Agora, nem locais a pisam, nem o parque limpa.

Quanto ao ponto e) a recuperação paisagística da Louriça, é uma questão que é interessante  do ponto de vista do simples caminheiro. Quando lá passamos, ficamos com a desagradável sensação de que a montanha se quer livrar destas antenas, destas construções de tijolo e cimento, destas saibreiras que populam aqui e ali os baldios de Lindoso(mesma sensação que se tem nas minas dos Carris), e desse estradão que vive a uns poucos metros de uma suposta ZPT, com os carros que vão lá passando, com a poeira, barulho e perturbação violenta de um equilibrio natural que se diz querer preservar. Nestas coisas sou muito claro: ou é património natural e zona protegida de grau máximo...ou não é. Parque Nacional, paredes meias com a Mata do Cabril, e depois temos carros para cima e para baixo por ali...enfim. A confederação de Associações de defesa do Ambiente, emitiu parecer sobre o mesmo plano de ordenamento em 2010, que entre outras coisas, recomenda a supressão de trânsito motorizado(excepção aos residentes) no troço Leonte-portela do Homem, ou no estradão da Bouça da Mó - Albergaria. mas sobre esta zona do Lindoso em particular. Fica om excertto desse parecer:

Ponto 6
Alinea b) seja suprimida a albufeira Alto Lindoso para a devida e eficaz salvaguarda da ZPT Mata
Cabril.
A albufeira do Alto Lindoso deve beneficiar de um estatuto de protecção elevado dado confinar com os
limites norte do vale da Mata do Cabril, (um espaço natural já fisicamente estrangulado). Deve ser
assegurada a interdição de qualquer utilização do plano de água a partir da desembocadura do rio
Cabril no Lima, a jusante da ponte nova, para montante (enseada criada pela albufeira). Para a
restante área do plano de água devem ser autorizadas apenas as actividades que não impliquem a
edificação de qualquer infra-estrutura.
O regulamento deve também condicionar a utilização do estradão florestal (Lindoso-Louriça) de uma
forma definitiva a partir da pousada da EDP permitindo apenas a circulação de residentes e das
equipas de manutenção dos equipamentos de telecomunicações instalados na Louriça. A salvaguarda
13
do vale do Cabril e da ZPT aí delimitada, está totalmente dependente/condicionada por este acesso.

e ainda do mesmo parecer...

CARTAS DE ZONAMENTO
Como ponto prévio, lamentamos que a versão final do Zonamento reflicta um recuo (diminuição da
extensão e estatuto das áreas que compõem a AAN) relativamente à proposta inicial apresentada
nesta Comissão.
A carta de Zonamento não permite verificar com rigor os contornos/limites de algumas das áreas
delimitadas por falta de elementos identificadores como sejam curvas de níveis e acessos. O caso mais
evidente verifica-se nos limites poente da ZPT na Mata do Cabril/Serra Amarela. Trata-se de uma zona
muito importante do PNPG que requer cuidado especial pela exiguidade de alguns espaços e pelas
várias pressões a que está sujeito (e por outras que se antevêem no futuro). Da protecção desta faixa
central do Parque Nacional depende a integridade futura da área protegida. Não deve também ser
ignorado o que já se facilitou no vale do rio Lima.

É o único parque nacional que temos, e no que diz respeito a zonas de valor ambiental, estamos muito limitados quando comparados com o nosso vizinho. Se não valorizarmos realmente o pouco que temos, é uma falha crassa. Banhocas penduradas nas cascatas e lagoas do Rio Homem? Chamar ZPT á Albergaria e outras que tais? e depois  permitir mandas de gente ao ponto de haver congestionamento nos caminhos ?Miséria.

Ponto 3
Impõe-se a interdição do trânsito motorizado nas vias referidas, Portela de Leonte-Portela do Homem e
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Estrada da Geira autorizando-o apenas aos residentes nas aldeias circundantes. A circulação que a lei
pretende manter contraria a preservação dos valores naturais em causa.

Igualmente reafirmamos a importância estratégica do encerramento definitivo (excepto a residentes) da
estrada Bouça da Mó - Albergaria e a proibição da utilização do rio Homem ( “piscinas naturais”, junto à
ponte no acesso à fronteira da Portela do Homem) para a prática de banhos.

Para pensar? Não, para agir, nem que seja pela educação que damos ao verdadeiros herdeiros deste valioso património.

1 comentário:

Alberto Pereira disse...

Mais um grande dia de montanha!

Percurso muito bem delineado e a exigir muito músculo: o meu registo favorito!
Um excelente treino tendo em vista desafios mais exigentes.

Obrigado Alexandre, e abraços para os camaradas de jornada.