sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Portela do Homem - Passado, presente e futuro

A Portela do Homem, posto fronteiriço com a Galiza, situado no concelho de Terras de Bouro, foi aberta com carácter permanente em 1980, depois de muita tinta ter corrido, depois de muita comoção e troca de argumentos entre variados grupos.

Historicamente, já desde tempos idos do Império romano, a circulação entre Braga e Astorga, capital da província, era feita por ali. A geira romana foi magnificamente construída, para facilitar o trânsito de exércitos, e mesmo até ao princípio do século.XX, foi utilizada. Ou seja, este acesso único do distrito de Braga à região da Galiza, sempre foi estratégico e querido pelos habitantes da região.

Com a criação do Parque Nacional da Peneda Gerês, em 1970, vários grupos ecologistas levantavam sua voz contra a possibilidade de abertura desta fronteira, invocando razões de preservação do património natural e humano. Isso chocava com as aspirações / necessidades dos habitantes e munícipes da região, e durante muitos anos se degladiaram estes lados sobre a abertura ou não do posto fronteiriço. A partir de 1975, de Maio a Outubro, e para efeitos turísticos, criaram-se postos da Guarda Fiscal do lado português e espanhol. Do lado português era, claro, um simples barraco a constrastar com a digna estrutura do lado de Lobios.

Resumindo: depois de muita luta, as gentes locais conseguiram que fosse autorizada por estâncias internacionais, a abertura permanente do posto fronteiriço em 1980 sob duas condições: a construção de uma estrutura digna para o posto de guarda fiscal e a existência de um melhor acesso(lembro ainda de às cavalitas de meu pai, ver aquela estrada entre leonte e Portela, em terra batida). Foi portanto asfaltada, para o efeito da abertura da fronteira.

Hoje, com a abolição de vigia fronteiriça e a livre circulação, já nem nos lembramos sequer destes episódios e dramas, que de uma forma muito resumida aqui tentei contextualizar para o propósito principal deste post: a indignação perante o assalto às lagoas nos meses de verão, sem a devida vigia.

É isto algo que pode ser encarado como parte do processo evolutivo de um mundo sempre a girar, sim. Mas...estaremos a constatar que os então grupos ecologistas, avesos á abertura da fronteira e muitas vezes até revestidos de excesso de sentimentalismo e cegueira para com os legítimos interesses sócio económicos das gentes de Bouro e alto Minho, ou apenas interessadas em protagonismo e poleiros, afinal...afinal teriam, apesar de tudo, razão???

Pois, eu acho que por um lado gostava que aquela zona tão rica e tão querida, fosse mesmo vedada a trânsito de veículos, mas...os interesses históricos e estratégicos de quem lá mora também e de quem lá trabalha são demasiado importantes também. Que fazer? Que fazer, quando durante todo o ano não-veraneio, os "simples" caminheiros- montanhistas, querendo percorrer de botas e bastão o belo parque, têm de ter cuidados de pedir autorizações e até pagamento de taxas, e perante a existência de um plano de ordenamento vêm chegada esta época quente, tudo isso ser lançado às urtigas?

Onde está o zelo pela visão de Lagrifa Mendes nas últimas palavras do seu discurso aquando da criação do PNPG em 1970?

 "Poderíamos, durante horas infindáveis, referir as maravilhas desta região e as diversas concepções de aproveitamento, relacionando-as com as de outros países. Julgamos no entanto que a hora é mais de programação e de solicitação de colaborações. Sobre os programas, o Plano Director, a seu tempo será apresentado com a ajuda de quantos nele quiserem colaborar - e aqui já vai implícito um grande pedido de apoio e de compreensão. A ajuda, tanto científica como moral, sobreleva a financeira, pois os bens materiais constituirão somente aquele mínimo que permita que a partir de 1973, se diga lá fora, que temos na Europa em maravilhoso Parque Nacional."

Este maravilhoso parque de centenas de pessoas que justamente têm o direiro de estar aqui, sim, não é maravilhoso. Não, por causa do lixo espalhado e contentores abarrotados nestes belos locais, dos acidentes regulares, do ruído de tantas centenas de carros, dos carros estacionados em zonas proibidas a criar engarrafamentos imagine-se, numa zona de proteção de estatuto assim garantido, e que por via de tanto desgaste, até essa via que esteve na origem da abertura do posto está agora tão degradada por buracos enormes, que quase só de jipe se recomenda? A Zona de Proteção Total, é nestes meses, percorrida por muitas dezenas de pessoas, estradão acima, de chinelo e lancheira( que por ser difícil de carregar naquele local chega a ser deixada no rio ou caminho). Ora...há plano de ordenamento ou não há? Se há, é para ser fiscalizado, e para toda a gente.

Um vídeo demonstrativo:



E o link para o post anterior de 1 de Agosto, onde é possível constatar mais sobre isto...
Não há meios de fiscalização?? Digam lá à população porquê, e vamos todos à luta, porque o parque é de todos. Se há dinheiro para atrocidades neste país, tem de haver para dispositivos de controlo de incêndios no parque e da massificação da popularidade do "Gerês". Eu se fosse responsável, não era preciso ser eng. para perceber quais os locais mais sensíveis a ter em atenção: a zona das pontes da albufeira na estrada para as Caldas, a Fecha de Barjas, a zona da Cascata do Arado e estradão até ao Poço Azul e a Portela do Homem - Vale do Homem. Só aqui, se deve concentrar uns 50% da ocupação de verão...ou mais. As casas dos guardas florestais estão abandonadas. Estas belas estruturas têm de ser reaproveitadas de alguma forma. Onde o rigor e os limites permitidos aos visitantes são abordados. Este documento é uma reflexão dos vários munícipes, sobre a situação do Parque em 1981. Atente-se às bases II(regulamentação rigorosa) e VI(restrição ao trânsito de visitantes). Parece que ainda não conseguimos aprender a lição...

No post anterior, referi após questionar um agente do ICNF sobre se era preciso autorização para fazer o percurso até aos Carris, a resposta, foi que se eu quisesse ser mesmo rigoroso, sim, mas se apenas de 150m acima da estrada e durante 4km e que se fosse aos Carris por outro lado que nem isso era preciso..........rigor.

Neste momento a coisa está a rebentar pelas custuras e a tendência não é melhorar. Quem visitar o parque vindo de fora vai ficar a pensar: pobrezinhos destes tugas...que miséria.

Finalizando: as instituições têm de alistar a população como parte da solução. Devem abrir fóruns de discussão e partilha e colaborações, tal como dizia Lagrifa Mendes. E quem está nos cargos preocupado mais com o seu salário do que com as gerações vindouras, ponha mão na consciência. Estamos a falar do Parque Nacional da Peneda Gerês, uma pérola nacional e para quem o conhece profundamente, um local único a nível mundial. Não podemos fechar os olhos nestes meses e simplesmente fazer de conta...não podemos. Basta.

"Há sitios no mundo que são como certas existências humanas: tudo se conjuga para que nada falte à sua grandeza e perfeição.Este Gerês é um deles." 
                                                                                                                       Miguel Torga

Este Gerês? Não, pelo menos não nestes sítios. Desculpa Miguel Torga...nós por cá havemos de tentar ajudar a melhorar isto.


Abraços




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