sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Fafião-Porto da Laje-Touça-Fichinhas-Conho-Rocalva-Vidoirinho-Valongo-Amarela-Bicos Altos-Pousada

Que magnifico dia para caminhar. Tendo como base o Trilho da Vezeira com cerca de 20km de extensão, subindo até cerca dos 1300m, trilho este que aconselho a ser feito apenas por quem tenha guia ou esteja bem ciente da realidade serrana, foi possível registar algumas das mais belas paisagens das nossas terras altas do Parque Nacional.. 

De Fafião até Porto da Laje, onde os mergulhos da praxe se impunham num dia de Agosto, e que bem souberam, revitalizando o caminheiro para o resto da ainda longa jornada. A seguir paragem breve no Curral da Touça que proporciona muitas sombras. Em direcção ao destino de almoço, o Curral das Fichinhas, atravessando a meia encosta um relevo que requer a máxima atenção para não se sair do melhor trilho. A visão de Porta Ruivas é imponente, majéstica e omnipresente. Nas Fichinhas o ribeiro proporciona um pequeno oásis refrescante que permite repouso e alento para o resto da viagem. Após o repasto, subindo em direcção a Mourisca, mas em vez de a subir para a Rocalva, derivamos à direita para visitar um dos mais belos currais da serra, o Conho. Em todos este pontos havia água fresca de nascente; que vantagem preciosa. Seguindo agora para o prado da Rocalva, que permite antes de o pisar, vistas assombrosas para o Conho atrás e para a frente a Rocalva, e Cutelo de Pias. O viajante tem de se sentar em contemplação e por momentos, o tempo pára e todo o esforço faz sentido. Nesta altura do ano, a vezeira faz-se sentir, pois o gado é abundante, nas Fichinhas, Conho e especialmente na Rocalva, onde junto ao abrigo, estava o pastor, que imediatamente e amigávelmente se entregou ao simpático convívio. Cerca de 30 animais pastavam e recriavam-se neste cenário belíssimo. Estava ele desde o dia anterior na serra, e como íamos para Fafião aproveitou a boleia de regresso na nossa companhia. Depois de cerca de 30m na Rocalva, um local extraordinário, à conversa, iniciámos o regresso, passando ainda pelo curral do Vidoirinho, e quando atravessávamos o estreito entre o Vale do Rio Laço e o do Rio Conho, um homem e mulher surgiram nossa frente, habitantes de Fafião, aflitos à procura de um pastor que tinha desaparecido à hora de almoço. Depois de alguma conversa ansiosa e preocupada sobre o assunto, percebemos que a situação era grave, pois a noite chegaria em menos de 1h30, e o senhor desaparecido tinha 75 anos e pouca saúde, tendo inclusive já uma vez, sido resgatado de heli no Vidoirinho. Ali, dividimos o esforço da busca ao homem, derivando nós e o pastor da Rocalva, para Valongo, Amarela e Bicos Altos, e os outros para Pradolã até Roca de Pinhô. Chegámos a pousada quase de noite e juntando o grupo aos bombeiros que também procuravam, chegámos à conclusão que teríamos de descer aos carros de sapadores dos baldios de fafião, tractores dos locais e bombeiros, estacionados na Chã de Touro. O desânimo era patente; as hipóteses de o pastor desaparecido ser encontrado bem pareciam distante e o pior cenário era colocado. As buscas continuariam no dia seguinte.

De boleia com os sapadores dos baldios, chegámos a Fafião depois das 9 da noite. 

Teefonando de manhã no dia seguinte para saber do resutado das buscas, soube que o pastor foi encontrado às 7h da manhã, arranhado de ter caído perto da corôa do Vale do Rio Conho. Foi transportado para o hospital de Montalegre e estará bem. Não se livrou de um grande susto.

Muito aprendi sobre a serra e seus recantos e custumes, sobre a fibra das gentes e a sua capacidade de mobilização e sacrifício por um dos seus, e sobre a dura e incrível realidade dos pastores dos baldios de fafião, que são, verdadeiros heróis, na tradição das vezeiras.

























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